Congregação de Salmonel -Visita de Estudo a Langley

Fevereiro 14, 2007

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Aristides Gorgulhão, PIDE Alfarrabista, Director da Cadeia de Peniche de 1964 a 1968. As constantes metamorfoses e diversidade de métodos utilizados pelas células terroristas na década de 60 e 70, implicavam uma constante actualização do modus operandi policial. Graças à falta de cooperação do Estado Novo com os restantes países da Europa, a Policia Internacional de Defesa do Estado estabeleceu protocolos de cooperação com a CIA, embora com uma enorme dificuldade logística associada. Como os agentes faziam parte integrante do Ministério da Administração Interna, só teriam direito a um passe da Carris, o que lhes permitia no máximo, ir até o Barreiro, ficando o ónus do restante trajecto para o Centro de Treino Intensivo da CIA em Langley, a cargo dos agentes interessados. Mais tarde este facto foi responsável para que se confundisse actos de tortura e a extorsão de que muitos agentes ficaram afamados, com a virtuosidade de um funcionário público, que auto didacticamente se substitui ao papel do Estado em financiar a formação profissional dos seus colaboradores. Aristides e Albano, após confiscarem vários volumes de tabaco espanhol, chouriços de Fermentelos e alheiras de Mirandela na aldeia fronteiriça de Sendim, juntaram os rendimentos obtidos da venda de 500 garrafões de aguardente provenientes de uma operação de fiscalização a uma vacaria em Chelas e a uma quantia nunca revelada, de uma operação de fiscalização a um bacalhoeiro atracado no porto de Leça da Palmeira (que seria o suficiente para pagar a viagem a todo o departamento policial de Lisboa e Porto), rumaram a Langley para integrarem um curso de formação profissional para agentes da lei. Durante o curso adquiriram conhecimentos de novas técnicas de vigilância com alta tecnologia, recorrendo apenas aos óculos graduados do agente Augusto Zarolho, dois copos de iogurte e um cordel, a estratagemas para apanhar terroristas utilizando duas cordas e um balde e à utilização de um relógio de joelho tecnologicamente evoluído para a época, que servia para contabilizar o tempo que era utilizado pelos agentes com contrato de tarefa e a recibo verde, durante o interrogatório aos oposicionistas do regime, razão pela qual, acidentalmente os detidos consumiam reiteradamente joelhadas nos queixos. Albano Taborda teve simultaneamente aulas de canto, oferecidas pela famosa cantora lírica Nancy Gustafson. Seis meses mais tarde, todos os detidos reclamavam de ser submetidos a uma tortura de sono mas na verdade seria só Albano Taborda a exercitar os seus dotes vocais a cantar todo o reportório de Nel Monteiro.

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Aristides em plena actividade prática

 Langley, Junho de 1970


Congregação de Salmonel – O Bacalhoeiro “Piriquita Luzidía”

Fevereiro 13, 2007

Congregação de Salmonel - O Bacalhoeiro “Piriquita Luzida”

Bezunta, líder sindical especialista em sabotagem. A falta de liberdades em Portugal durante o Estado Novo criou um sem número de negócios paralelos obscuros. O controlo por estes mercados criou fortunas ilícitas. Um mercado de grande sucesso era a importação de pornografia e brinquedos sexuais da Holanda e Alemanha. Mas como seria bastante perigoso possuir estes items em casa, havia um bacalhoeiro chamado Piriquita Luzidía com bandeira do Suriname que atracava ao largo da costa. Os habitantes de zonas costeiras que conseguissem uma embarcação poderiam ir umas horas gozar dos privilégios da liberdade, tendo apenas que levar manteiga sem sal ou massa consistente para minimizar as dores.

Bezunta havia sido enviado ao Piriquita Luzidía com o intuito de exigir uma comissão sindical para ajudar a revolução eminente. Levou alguns capangas para, à força, fazer valer os seus argumentos. O informador que denunciou a actividade a Bezunta, teria também reportado a mesma mensagem a Aristides Golgulhão. A chegada dos barcos da guarda fiscal e do gang de Bezunta iria coincidir. O informador, pago por um anónimo, foi viver para o Brasil com uma pensão de reforma do Ministério da Economia e onde viria mais tarde a morrer de gonorreia que apanhara entretanto de um Tucano amestrado.

Os guerreiros da revolução eram pessoas sem medo, excepto do sobrenatural (que não admitiam acreditar) e de pêssegos (no caso de Bezunta). Ao chegarem ao Piriquita Luzidía depararam com uma enorme névoa rente ao mar. Umas luzes piscavam algures dentro daquela neblina e sons de madeira húmida e cordas a ranger vibravam pelo vazio, sendo apenas acompanhadas pelo ténue abraço das parcas ondas nos cascos das embarcações.

Do nada surge um pequeno bote com três criaturas. Os remos pareciam não se mexer e os vultos eram enormes com grandes túnicas que lhe encobriam as cabeças. Ao aproximar-se, Bezunta entrou em pânico ao reparar que os bote era ocupado com criaturas de cabeça de porco e todo o barco era sangue, por fora e por dentro. Um som agudo e horrendo soou pelos mares. Bezunta deu meia volta em pânico descontrolado e a sua embarcação voltou para terra a toda a velocidade. A meio caminho cruzaram uma embarcação que ia para a Piriquita Luzidía. Na frente ia um homem, Aristides Gorgulhão. Bezunta, ainda com o coração a galopar, baixou os olhos e atirou-lhe um “Bom Dia” de sotaque beirão. Passados uns minutos ouviu novamente o tal som agudo e horrendo, abafado pela distância. Gritos e pânico. A embarcação da guarda fiscal acabou por voltar novamente a ultrapassar o barco de Bezunta antes deste chegar a terra. A bordo ainda se ouvia a frase “Carago, Albano! Acorda! Atirem-lhe mais água…!”

Ao que parece também o dono do Piriquita Luzidía fora avisado do plano dos homens de Bezunta e da guarda fiscal, e tomou previdências de última hora. Resultaram e durante anos a diversão foi garantida para quem se munisse de massa consistente, lenços de bolso absorventes, uma barcaça e 2 contos de reis.

Foto: Piriquita Luzidía atracado no porto de “Coño de Madre”, na Galiza.


Congregação de Salmonel – Os Ofícios Obscuros

Fevereiro 8, 2007

Chelas

Bezunta, líder sindical especialista em sabotagem. Nos idos tempos da clandestinidade, havia frequentemente a necessidade de recorrer a casas e ofícios de bom nome dentro do aparelho do regime para gerir importantes acções de revolução. Bezunta reunia-se frequentemente durante 2 anos (entre 67 e 69) com a sua equipa numa leitaria em Chelas, propriedade da quinta de Edmundo Antunes de Alvarez. O Sr. Alvarez ainda se encontra vivo no lar da 3ª idade “Última Morada”, em Tabuelas, perto de Mermil do Alentejo. Conseguimos falar com ele acerca de Bezunta, tarefa que se revelou complicada devido à sua paranóia com a espionagem, uma vez que acredita que ainda estamos no regime do estado novo e que esta conversa do 25 de Abril é apenas um truque de Marcelo Caetano para apanhar delatores e simpatizantes comunistas, que para ser credível tem que durar algum tempo.

Às perguntas acerca da intimidade de Bezunta e dados da sua vida pessoal, tende a responder com a frase “Tinha uma vacaria em Chelas”, frase que o tornou famoso nas convenções nacionais de Serviço Social, quando no coffee brake alguém conta piadolas profissionais.

Sabe-se que Bezunta lhe terá oferecido 221 contos de réis para obras de estrutura na dita vacaria, que permitisse um abrigo subterrâneo para albergar reuniões sindicais de alguns protagonistas de Salmonel. Além disso, Edmundo Alvarez aproveitou algum esse dinheiro para reestruturar o seu alambique de aguardente de cereja que ainda hoje deixa saudades a quem o adquiria no mercado negro na região de Penela.

A vacaria e a leitaria foram parcialmente destruídas por uma brigada liderada por Aristides Gorgulhão, mas devido a uma denúncia de um tipo que apareceu uns dias antes vestido de Boi que se identificou como Tarzan, o golpe apenas permitiu que fossem confiscados 500 garrafões de aguardente que mais tarde foram dados como desaparecidos.

Fotografia de Edmundo Alvarez tirada na sua vacaria em Chelas em Março de 1968


Congregação de Salmonel- Célula de Santarém

Fevereiro 7, 2007

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Célula terrorista que perpetrou o infame ataque terrorista a Albano Taborda a 4 de Agosto de 1968. 

 

Um dia depois da aparatosa queda de Salazar, o estado planeou uma corrida de beneficência para angariar fundos para a delicada operação do Presidente do Conselho. Américo Tomás nomeou Aristides Gorgulhão para organizar a corrida tendo este indicado Albano Taborda para cabeça de cartaz, disfarçado de touro de 450Kg da Casa Agrícola de Marianela Porcalhota (filial da Padaria de Odemira), sendo o restante cartel formado por os Cavaleiros Albertino Dias e Antonino Farrusco, os únicos guardas prisionais da cadeia de Peniche que sabiam andar a cavalo, e por o Grupo de Forcados Amadores de Montemor-o-Novo, tendo estes sido substituídos à ultima hora por o Grupo de Forcados Amadores de Santarém, os quais não passavam de uma célula terrorista liderada por Bezunta. A primeira parte da corrida correu conforme o planeado, sendo o Cabo Albertino Dias aclamado pela sua sensacional lide. Na segunda e ultima parte, a intervenção do grupo terrorista que após a reunião com o toiro e a pega já consumada, intentaram à integridade física de Albano Taborda com dois pares de bandarilhas, ao mesmo tempo que um dos malfeitores lhe puxava ostensivamente o rabo. Graças à rápida intervenção de Aristides Gorgulhão, a célula terrorista foi detida, excepto Bezunta que aqui disfarçado Bombeiro Voluntário de Vilar de Perdizes, conseguiu escapar entre a multidão.

Vila Franca de Xira, Agosto de 1968


Congregação de Salmonel – O caso Alarcão Lombarda

Fevereiro 4, 2007

O caso Alarcão Lombarda

Bezunta, líder sindical especialista em sabotagem. Alguma confusão existe acerca do incidente que vitimou Dr. Oliveira Salazar em 1968. Uma das causas dessa nuvem de dúvida deve-se a um artigo publicado por essa altura no jornal comunista “Asas de Serralheiro”, publicado e impresso em Paris na década de 60. Era um jornal ilegalmente distribuído em Portugal conhecido pelas sua secção de anedotas e o horóscopo chinês. O horóscopo soviético nunca foi grande sucesso devido ao facto de ser igual todas as semanas.

Na semana do acidente de Salazar, um editor do “Asas de Serralheiro” descobriu numa viagem de jornalismo de investigação que Bezunta era funcionário na altura na serração e carpintaria Alarcão Lombarda e Irmão. Teve depois acesso a uma lista de clientes, entre os quais constava o Estado português. Cego pela descoberta e obscurecido pela reputação de Bezunta, foi rápido a eleger o líder sindical especialista em sabotagem com o responsável pela queda da cadeira de Salazar. O problema é que negligenciou toda a informação do acidente, como por exemplo o facto de ele ter existido pela ausência de cadeira e não pelo uso de uma cadeira deficiente.

Rapidamente se espalhou a notícia de que o herói Bezunta era responsável directo pela primeira mudança de relevo da política nacional em décadas. Bezunta foi contactado para se apresentar num quartel general da resistência nacional, mas teve que adiar o acto de recepção das honras de heroísmo por se encontrar a meio do processo de envernizagem de um quarto de casal para o Palácio da Ajuda.

Ele bem tentou dizer que o trabalho de carpintaria não teria nada a ver com a sabotagem ao sistema, uma vez que andava a tentar ganhar dinheiro para pagar uma aposta de uma corrida de galgos, mas a excitação era tanta que as suas palavras foram sempre confundidas com modéstia.

Bezunta era um personagem verdadeiramente sobreavaliado, a quem sucessões de mal entendidos e alguma dose de promoção pessoal teriam criado sobre si uma aura de heroísmo exacerbado. Ao perceber que poderia ter ganho alguns pontos na subida da hierarquia acabou por acatar as ordens e ser coroado como herói.

Realçamos aqui uma famosa frase do seu discurso de agradecimento, em que fala acerca da eminente revolução: “Não é com pastéis nem alambiques, como outrora nos fizeram crer, é com coragem e uma dose certeira de embude que veremos nascer uma nova aurora, refreada por nostalgia do tempo em que o Homem era por si só uma sarlidea de perene brusquidão! A ribalta de secreto solstício.”

Buraca, Janeiro de 1969


Congregação de Salmonel-Assalto ao Banco de Portugal

Fevereiro 1, 2007

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Reza a historia que uma brigada oposicionista, em 17 de Maio de 1967, liderada por Palma Inácio assalta a agência do Banco de Portugal na Figueira da Foz, desviando 29 mil contos. A partir destes fundos será criada a LUAR, mas a historia verídica não é bem assim.Estamos no início de Maio de 1967, Aristides recebe no seu gabinete da prisão de Peniche, um folheto publicitário de férias em época baixa no Mercure Hotel da Figueira da Foz. O preço era demais convidativo, cem escudos por noite, em suite para duas pessoas. – “Quem vou eu levar comigo?” pensou Aristides olhando para uma fotografia de um boi albino na sua secretaria. –“só se for o Albano…” pensou ele. Depois de malas feitas, tudo a caminho. No seu Volkswagen 1300, lá foi Aristides e o seu comparsa a caminho da Figueira da Foz. Já a sair da cidade de Coimbra, Aristides lembrou-se de que só tinha dinheiro para a estadia e faltava para as refeições, casino, meninas, etc. –“Albano, tens quanto dinheiro contigo?”. –“dinheiro ??, ó shôr Director, eu pensava que não era preciso trazer dinheiro. Deixei o par de peúgas onde guardo as notas na gaveta da cómoda.” Aristides foi todo o caminho a pensar o que haveria de fazer. Depois do check in, Aristides e Albano atiram-se vorazmente ao Buffet do restaurante do hotel sem se preocuparem minimamente com a conta. Seguidamente vão para o casino, onde todos os funcionários do partido tinham conta aberta e a folia durou toda a noite. Ao início da manhã, as dividas ascendiam a mais de setecentos contos. –“Ò shôr Director, acho que ainda bamos parar ao Tarrafal”, disse Albano. –“Cala-te ò meu totó do caraças, até ao fim da tarde eu resolvo isto com a maior das calmas”.

Aristides dirigiu-se para a agência bancária mais próxima do Banco de Portugal e tentou pedir um empréstimo para habitação, com taxa de juro bonificada, em nome de um tal Palma Inácio. O gerente pediu-lhe o bilhete de identidade, já que com aquele boi do Albano a babar-se constantemente ao seu lado, ficou meio apreensivo. A história do empréstimo não pegou e Aristides fez o seu habitual sinal de piscar os dois olhos e puxar a orelha esquerda ao seu discípulo, Albano rapidamente desferiu um Dropkick seguido de um BackSlam na cabeça do gerente. Só faltou carregar os sacos com todo o dinheiro que havia por perto e a peripécia rendeu mais de dois mil contos.

Para seu espanto, os periódicos do dia seguinte, faziam um grande alvoroço sobre um grande assalto à agência do Banco de Portugal por uma brigada oposicionista e que tinham roubado vinte e nove mil contos. – “Olha o sacana do gerente! Ò Albano, abre as malas é tira o dinheiro das peúgas que já podemos ir gastar o troco”.

Figueira da Foz, Maio de 1967


Congregação de Salmonel – Operação Tarrafal

Janeiro 31, 2007

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Em Agosto de 1970, Emanuel Monhé, Salomé Monhé e Gongunhanha Monhé, famosos terroristas, de naturalidade Cabo-verdiana, preparavam-se para tomar de assalto o Estabelecimento de Correcção Penal do Tarrafal, na Ilha de Santiago, para libertar o seu meio irmão da parte do pai, Joaquim da Silva Monhé, detido pela violação de duas galinhas, no ano anterior. A operação de declarada insurreição, estava planeada para o dia 15 de Agosto de 1970. Necessitando os pérfidos terroristas de provisões para a campanha e como era sabido na altura, as provisões das lojas a que havia acesso na ilha eram muito escassos, resolveram então encomendar 24 bicos e 2 cacetes por carta, a uma famosa padaria de Odemira. Ficando curiosa com tão estranho pedido, que em Odemira ninguém comprava mais do que 10 bicos na sua padaria, por estes serem 5 cêntimos mais caros que o normal, Marianela Porcalhota inquiriu aos meliantes o porquê de 24 e não 20, ou mesmo 10 bicos, para não falar nos cacetes. Ficou a saber que os mantimentos se destinavam para que os patifes permanecerem acoitados durante 3 ou 4 meses, sem necessidade de ir às compras. Tendo de imediato a percepção de que algo grave estaria para acontecer, resolveu ir bazofiar toda a história a Aristides Gorgulhão, tendo este partido de imediato para a colónia juntamente com o seu agregado Albano Taborda.Após a sua chegada, Aristides manteve-se à porta do correio no dia da chegada da encomenda e seguiu os meliantes até ao lugar onde estavam escondidos. Após um cerco de 6 meses, os biltres já sem provisões, fortemente armados com canas da índia, admiravelmente aguçadas na ponta e catanas da melhor qualidade que era possível arranjar em Cabo Verde, após breves escaramuças com Albano Taborda, que lhes aplicou vários BodySlams, Dropkicks e alguns Bearhugs renderam-se à brigada de intervenção chefiada por Aristides Gorgulhão.Na foto, para além dos irmãos Monhé, encontram-se dois primos e um sobrinho que os coadjuvavam no ataque.

Ilha de Santiago – Fevereiro de 1971


Congregação de Salmonel – 24 de Abril de 1974

Janeiro 31, 2007

24 de Abril de 1974

Bezunta, líder sindical especialista em sabotagem. Depois de uma reunião de capitães em Bissau (Agosto/73) houve uma nova reunião em Sobral (Alcáçovas) em Março de 1974. Foi criado o Movimento das Forças Armadas e alguns documentos ficaram disponíveis para circular clandestinamente pelos núcleos regionais de resistência. Mas é só a 24 de Março que é feita a decisão de derrubar o governo pela força. Toda a estratégia foi montada e, até ao mais ínfimo pormenor, tudo estava preparado. Dia 24 de Abril de 1974 seria o dia da grande revolução. No entanto havia ainda a resolver um problema técnico que tinha a ver com a sincronização do início da revolução.

Bezunta já se havia retirado das manobras principais de sabotagem e operava com relativo sucesso um batatal para os lados de Salvaterra de Magos, que abastecia grande parte dos comerciantes locais. Por vezes ainda fazia de mensageiro em operações mais secretas. A técnica era escrever a mensagem numa batata usando cola. Depois a batata era polvilhada de pó branco. No destino bastava soprar para a batata e o pó soltava-se à excepção do sítios onde havia cola. E as mensagens eram assim muitas vezes transmitidas.

Contactado pelo Movimento das Forças Armadas, Bezunta sentiu-se orgulhoso com a tarefa que lhe havia sido incumbida: sincronizar as ocorrências que iriam depor o regime. Analisando a cobertura das rádios nacionais, escolheu um conjunto de locais e frequências onde iria ser transmitida uma música que dava o sinal às hostilidades. Depois consultou um conjunto de músicas que poderiam dar o mote. Enquanto comia fruta de um cesto, ia passando em revista todos os Singles de 78 rotações.

Bezunta tinha uma fobia que escondia de toda a gente, um terrível fobia a pêssegos. Mesmo o mais inofensivo pêssego lhe provocava um tenebroso pavor que podiam mesmo a provocar alguns descuidos intestinais embaraçosos. Na altura em que saboreava uma deliciosa pêra abacate, meteu a mão na caixa e puxou um pêssego. O ataque de pânico fez com que derrubasse algumas pilhas de discos que se misturaram. Recuperado, voltou a organizar tudo. Alguns discos ficaram misturados, mas não se preocupou muito com isso.

O tempo foi passando e Bezunta ia-se distraíndo com umas palavras cruzadas da revista clandestina “Garota Marota” e perdeu algum interesse nos discos. Entretanto alguém lhe ligou com a indicação que iria passar alguém para trazer as instruções da música a passar. Bezunta, aflito, começa a escolher rapidamente um disco pela capa. Sem tempo para ouvir, tira um single de Caetano Veloso entitulado “Buceta esperando cenouras”. Encantado com o seu próprio sentido de ironia, acabou por escolher este porque seria um trocadilho engenhoso que embaraçaria Marcelo Caetano, pela similaridade dos nomes.

No dia 23 de Abril estava tudo preparado. Mas havia de ser um estagiário que chamou a atenção para a nacionalidade de Caetano Veloso. A senha que daria início à revolução teria que ser um símbolo de unidade nacional, não uma importação brasileira. O estagiário levava debaixo do braço um LP de Zeca Afonso para a incineradora, mas acabou por ser esse o escolhido devido à pressão da data.

A revolução havia de ser adiantada um dia devido à necessidade de enviar 342 pombos correio com a informação da nova senha de arranque. O estagiário recusou mais tarde uma menção honrosa porque tinha medo que lhe encravasse a carreira e ele não queria mudar o nome artístico de Luis Pereira de Sousa para Alberto Cajú, como lhe havia sido sugerido pelo Movimento das Forças Armadas.

Foto: Estúdio Privado de Bezunta (Abril de 1974)


Congregação de Salmonel-Relatório de Sevícias

Janeiro 29, 2007

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Conclusões do Relatório de Sevícias de Março de 1967

Forte de Peniche, Março de 1967 

1-      Fica provado de que o detido nº2365 Manuel Tinto Borba, sofreu de uma grave contusão na fonte esquerda, não por ter sido agredido pelo guarda Antonino Farrusco, como o próprio detido afirma, mas ao facto de ter escorregado na massa guisada servida ao jantar de 2ª feira, propositadamente deixada no seu caminho pelo detido nº2368 Joaquim Bagina, facto esse que provocou uma queda aparatosa desde a sala do refeitório, até à entrada da enfermaria na ala esquerda do r/chão, onde foi rapidamente examinado pelo Exº. Sr. Doutor Artur Arrebita, seis horas e meia depois. O detido aproveitou o parco tempo de espera que esteve sujeito, para se arremessar repetidamente da maca e apesar da rápida intervenção dos guardas para o apanhar, infelizmente não conseguiram evitar as fracturas nos dois braços, a fractura exposta na perna direita e os 8 dentes partidos.

2-      Quando o 2º Cabo Albertino pretendeu inquirir os restantes reclusos dos factos ocorridos, dois reclusos insistiram em se arremessar da janela do refeitório, apesar da tentativa frustrada do 2º Cabo Albertino para os conter, três escorregaram na mesma massa guisada referida no ponto anterior, indo parar dois à ala direita do r/chão e o outro ao 2º piso, corredor Sul.

3-      O detido por actividade revolucionária e incitamento à disciplina social, nº 2368, Joaquim Bagina, foi unicamente obrigado pelos guardas de serviço ao refeitório, em limpar o chão que tinha sujado propositadamente e em momento anterior à consumação dos factos. O argumento usado pelo detido para o facto de lhe faltar um braço e todos os dentes, não foi convincente pelo simples facto de que o detido não deu como provado a posse dos mesmos à data de entrada neste estabelecimento de correcção.

4-      Fica estabelecido a atribuição de um louvor de serviço e a atribuição de dois garrafões de vinho tinto ao Guarda Antonino Farrusco, pela excelência nas funções que lhe foram atribuídas, excedendo as suas funções de Guarda Adido ao Refeitório, para acompanhar o detido nº2365 à enfermaria.

5-      Fica estabelecido a atribuição de um louvor de serviço e quatro garrafões de vinho tinto ao Cabo Albertino por brio e coragem, na forma de que tentou evitar a auto flagelação dos detidos que não gostavam de massa guisada.

6-      Fica estabelecido a atribuição de seis garrafões de vinho tinto ao Exº. Sr. Doutor Artur Arrebita, pela forma extremosamente expedita a que acorreu às nossas instalações, abdicando da sua estada em serviço em casa da Srª. Dona Marianela Porcalhota, em prol da boa funcionalidade deste estabelecimento correccional.

O Director

Aristides Gorgulhão


Congregação de Salmonel – WarGames e MindTripping

Janeiro 29, 2007

WarGames e MindTripping

Bezunta, líder sindical especialista em sabotagem. Apesar de ser um líder calculista, irascível e sanguinário, Bezunta era uma alma sonhadora. Antes de acabar os planos para cada novo ataque, era invadido por sonhos de glória, mesmo acordado. Sonhava ser levado em ombros pelas Avenidas da capital, ser saudado como herói e receber favores sexuais de amáveis escuteiros. Nos seus momentos de lazer aproveitava para treinar manobras mediáticas de reconhecimento popular. É bem conhecido a bexiga de porco com a fotografia de Marcelo Caetano que usavam para aliviar o stress em jogos de futebol, mas ficou popularizado pelos treinos do saque da bandeira.

Bezunta, frequentemente bêbedo, corria pelo campo evitando os seus colegas de jogo, tentando chegar à bandeira. Era um jogo muito concorrido na altura. Quem conseguisse o melhor tempo a sacar a bandeira, era quem o iria fazer no dia da Grande Revolução. Depois voltavam aos planos de sabotagem onde frequentemente entravam em rixas que envolviam assuntos conjugais, adultério, demonstrações de virilidade e cogumelos mágicos enviados pela Frente de Libertação Feminista da Holanda.

Esta prova fotográfica foi obtida no campo de treino de Baguim do Monte, perto de Gondomar, em pleno treino do saque da bandeira.

Baguim do Monte, Maio de 1970