
Bezunta, líder sindical especialista em sabotagem. Depois de uma reunião de capitães em Bissau (Agosto/73) houve uma nova reunião em Sobral (Alcáçovas) em Março de 1974. Foi criado o Movimento das Forças Armadas e alguns documentos ficaram disponíveis para circular clandestinamente pelos núcleos regionais de resistência. Mas é só a 24 de Março que é feita a decisão de derrubar o governo pela força. Toda a estratégia foi montada e, até ao mais ínfimo pormenor, tudo estava preparado. Dia 24 de Abril de 1974 seria o dia da grande revolução. No entanto havia ainda a resolver um problema técnico que tinha a ver com a sincronização do início da revolução.
Bezunta já se havia retirado das manobras principais de sabotagem e operava com relativo sucesso um batatal para os lados de Salvaterra de Magos, que abastecia grande parte dos comerciantes locais. Por vezes ainda fazia de mensageiro em operações mais secretas. A técnica era escrever a mensagem numa batata usando cola. Depois a batata era polvilhada de pó branco. No destino bastava soprar para a batata e o pó soltava-se à excepção do sítios onde havia cola. E as mensagens eram assim muitas vezes transmitidas.
Contactado pelo Movimento das Forças Armadas, Bezunta sentiu-se orgulhoso com a tarefa que lhe havia sido incumbida: sincronizar as ocorrências que iriam depor o regime. Analisando a cobertura das rádios nacionais, escolheu um conjunto de locais e frequências onde iria ser transmitida uma música que dava o sinal às hostilidades. Depois consultou um conjunto de músicas que poderiam dar o mote. Enquanto comia fruta de um cesto, ia passando em revista todos os Singles de 78 rotações.
Bezunta tinha uma fobia que escondia de toda a gente, um terrível fobia a pêssegos. Mesmo o mais inofensivo pêssego lhe provocava um tenebroso pavor que podiam mesmo a provocar alguns descuidos intestinais embaraçosos. Na altura em que saboreava uma deliciosa pêra abacate, meteu a mão na caixa e puxou um pêssego. O ataque de pânico fez com que derrubasse algumas pilhas de discos que se misturaram. Recuperado, voltou a organizar tudo. Alguns discos ficaram misturados, mas não se preocupou muito com isso.
O tempo foi passando e Bezunta ia-se distraíndo com umas palavras cruzadas da revista clandestina “Garota Marota” e perdeu algum interesse nos discos. Entretanto alguém lhe ligou com a indicação que iria passar alguém para trazer as instruções da música a passar. Bezunta, aflito, começa a escolher rapidamente um disco pela capa. Sem tempo para ouvir, tira um single de Caetano Veloso entitulado “Buceta esperando cenouras”. Encantado com o seu próprio sentido de ironia, acabou por escolher este porque seria um trocadilho engenhoso que embaraçaria Marcelo Caetano, pela similaridade dos nomes.
No dia 23 de Abril estava tudo preparado. Mas havia de ser um estagiário que chamou a atenção para a nacionalidade de Caetano Veloso. A senha que daria início à revolução teria que ser um símbolo de unidade nacional, não uma importação brasileira. O estagiário levava debaixo do braço um LP de Zeca Afonso para a incineradora, mas acabou por ser esse o escolhido devido à pressão da data.
A revolução havia de ser adiantada um dia devido à necessidade de enviar 342 pombos correio com a informação da nova senha de arranque. O estagiário recusou mais tarde uma menção honrosa porque tinha medo que lhe encravasse a carreira e ele não queria mudar o nome artístico de Luis Pereira de Sousa para Alberto Cajú, como lhe havia sido sugerido pelo Movimento das Forças Armadas.
Foto: Estúdio Privado de Bezunta (Abril de 1974)